Autor: Luiz Tosi

  • JUDAS PRIEST | PANTERA – São Paulo (SP)

    JUDAS PRIEST | PANTERA – São Paulo (SP)

    Por Luiz Tosi

    Fotos: Roberto Sant’Anna

    No último domingo (18), São Paulo recebeu a primeira edição do Knotfest Brasil, festival que traz, além do Slipknot, banda que dá nome ao evento, os veteranos do Judas Priest, a volta do “Pantera” e as bandas Bring Me the Horizon, Sepultura, Trivium, Mr. Bungle, Motionless In White, Vended, Project46, Oitão e Jimmy & Rats. Antes, porém, os bangers paulistanos ganharam de quebra uma apresentação solo Judas Priest, com direito a abertura do Pantera, realizada na quinta-feira (15) no Vibra São Paulo (antigo Credicard Hall).

    Confesso que nunca fui um grande fã de Pantera. Longe de achar ruim, apenas não me faz tanto a cabeça. É um tipo de banda que basta um ‘Greatest Hits’ na minha coleção. De qualquer modo, me colocando no lugar dos fãs, acho que não teria curtido nadinha eles se reunirem usando esse nome. Preferiria que preservassem a “lenda”, adotando um nome-tributo (“Cowboys From Hell” funcionaria bem). Mas enfim, é direito deles.

    Dos membros originais, apenas o vocalista Phil Anselmo compareceu, uma vez que o baixista Rex Brown foi diagnosticado com Covid-19 ainda durante a passagem da banda pelo Chile, e teve que ser substituído por Derek Engemann, companheiro de Anselmo nas bandas The Illegals e Scour; transformando então o “Pantera” numa espécie de “Phil Anselmo & Friends”. Com relação aos membros convidados, Zakk Wylde sempre pareceu a escolha mais óbvia, já que os rumores sobre essa reunião com ele na guitarra datam de 2013, antes mesmo de o baterista Vinnie Paul falecer. A presença de Charlie Benante foi outra escolha previsível e acertada, não só pela suas técnicas “baterísticas”, como também pela relação de amizade de mais de 25 anos entre Anthrax e Pantera.

    A expectativa pela apresentação do Pantera era grande por parte do público, que veio em peso para ver a banda. Pela minha pesquisa “Data-Camisetas”, dá para dizer que o Pantera praticamente dividiu o Vibra SP com o Judas Priest. A banda entrou com A New Level, levando alguns fãs às lagrimas. Ninguém parecia se importar que de “Pantera” mesmo, só tinha Phil Anselmo, e o público realmente abraçou a ideia da volta da banda. Alguns chegaram até a gritar “não acredito que eu estou vendo Pantera”. Acho que vai continuar sem ver, mas deu para entender o ponto.

    Verdade seja dita, a banda fez por merecer a recepção calorosa entregando um ótimo show. O setlist agradou dos mais fanáticos, que cantaram (berraram?) as letras até de faixas menos óbvias como Yesterday Don’t Mean Shit; até os “fãs de Greatest Hits”, como eu. Difícil ficar parado com Becoming, I’m Broken, 5 Minutes Alone e Walk, ou com os hinos Mouth for War e Cowboys From Hell. Também não faltaram homenagens aos irmãos Abbot. “Há um milhão de coisas que eu poderia dizer agora, mas tudo o que vou dizer é que cada nota que tocamos, cada letras e cada melodia são para Vinnie e Dime”, disse Anselmo logo no início do show. No meio do show, um dos momentos mais emocionais, quando os telões um vídeo em tributo aos irmãos, primeiro ao som de Cemetery Gates e, em seguida, com a banda executando Planet Caravan, cover do Black Sabbath.

    O público foi bastante participativo, mas se portou de modo bem comedido. Nada de moshpit, pula-pula e stage dive. Em contrapartida, sobrou celular pro alto, gravando tudinho. Outro detalhe que chamou a atenção foi a presença de Rob Halford ao lado do palco durante grande parte do show do Pantera e parecendo gostar bastante.

    Quanto às performances, não tenho muito embasamento para avaliar o vocal de Phil Anselmo, que costuma ser questionado pelos fãs, mas não achei nada de errado com a sua performance. Pelo contrário, gostei muito. Entendedores, por favor, comentem. Água no chope à parte, Derek Engemann tirou o desafio de letra e entregou uma performance bastante sólida e segura no baixo. Mas o que todo mundo queria ver mesmo era Charlie Benante e Zakk Wylde.

    Benante é um nerd-cdf, como tal, parece ter estudado cada detalhe de Vinnie. Do som de bateria, trigado como o do baterista do Pantera, à interpretação em si, tudo pareceu pensado nos detalhes para levar o público de volta à experiência de sentir a bateria do amigo ao vivo. E aqui o verbo correto é “sentir” mesmo. Aplausos para Charlie. Já Zakk Wylde… bom, Zakk Wylde foi Zakk Wylde. E, como era de se esperar, Zakk Wylde tocando Pantera soa exatamente como… Zakk Wylde tocando Pantera. Ele nem de longe tentou replicar e capturar o som e a pegada de Dime. Não fez questão nenhuma de emular o guitarrista original, abusando dos seus harmônicos e timbres característicos. Ficou interessante, porém, nem sempre funciona. Como Phil, Charlie e Derek executam vocais, bateria, baixo em linhas bem próximas às versões originais, a guitarra de Zakk acabava se destoando como o “elemento diferente” e, às vezes, isso acaba te tirando das músicas. This Love foi um exemplo disso. De qualquer modo, maioria esmagadora dos fãs parece ter aprovado Zakk e essa nova encarnação do Pantera. Sendo assim, quem sou eu para discordar? Vinda longa ao Pantera!

    O intervalo para troca de palco foi extremamente lento, atrasando bastante o início do show do Judas Priest. A nota negativa da noite vai a desorganização, o despreparo e a falta de estrutura do Vibra SP. Uma aula de ineficiência na organização das filas de entrada e orientação do público, além de filas intermináveis nos banheiros (entupidos) e bares que fizeram muitos fãs perderem parte dos shows. E para piorar, ainda durante o show do Pantera a cerveja acabou! Como diria um amigo meu: tétrico.

    Completando 50 anos da sua formação, o Judas Priest tem se mantido vivo e ativo com classe e brilhantismo únicos, mesmo tendo atravessado uma série de turbulências e adversidades que vão de dramas via imprensa entre a banda e o ex-guitarrista K.K. Downing, ao afastamento do guitarrista Glenn Tipton devido a um diagnóstico de mal de Parkinson, passando por um tratamento de câncer de Rob Halford. Sem falar na ideia esdrúxula de sair em turnê com apenas um guitarrista – decisão que foi revista rapidinho, tamanha a reação negativas dos fãs.

    Nessa turnê, os membros originais, Rob Halford (vocal) e Ian Hill (baixo), seguem acompanhados pelos seus fiéis escudeiros, o guitarrista Richie Faulkner e o espetacular baterista Scott Travis. O time é completado pelo produtor da banda (e de tantas outras), Andy Sneap, que dá uma força fazendo as vezes de Glenn Tipton, executando suas partes à perfeição.

    Como já é tradição nas apresentações do Judas, War Pigs, clássico do Black Sabbath, avisa que o show vai começar. A abertura também é uma tradição: The Hellion (gravada) e Electric Eye, faixas de abertura de Screaming For Vengeance, de 1982 e o disco que define heavy metal para 9 em 10 fãs do gênero. O entrosamento de mais de trinta anos entre Ian Hill e Scott Travis resultou em das melhores cozinhas do heavy metal, criando a base perfeita para qualquer guitarrista brilhar. E Richie Faulkner aproveita essa oportunidade como poucos. Esse já está em casa. Mas logo na primeira música, fica claro quem é o dono da noite: que fase maravilhosa essa do Rob Halford. Aos 71 anos de idade, ele transborda confiança e consegue como poucos entender suas fortalezas e seus limites. Rob conhece todos os atalhos e recursos e técnicas e tecnologias à sua disposição para entregar uma performance impecável. Vestido com couro e lantejoulas, ele impressiona em cada detalhe. Não é à toa que ele é o Deus Metal.

    O setlist foi uma ótima surpresa, bem mais voltado para as faixas “straight metal” e quase todo calcado nos anos 80. Após Electric Eye, vem a trinca Riding on the Wind, You’ve Got Another Thing Comin’ e Jawbreaker, que volta ao setlist depois de seis anos. A seguinte é Firepower, faixa-título do mais recente álbum, de 2018 – disparado, o melhor lançamento desde o retorno de Rob Halford para a banda, em 2003. Faixas menos manjadas e algumas surpresas como Devil’s Child, Steeler e Between the Hammer and the Anvil caíram muito bem ao lado de outras mais consagradas como as mid-tempo Turbo Lover e Metal Gods e as bofetadas Screaming for Vengeance e Painkiller. Ainda tivemos uma das minhas favoritas, The Green Manalishi (With the Two Prong Crown), cover do Fleetwood Mac devidamente apropriado pelo Priest ainda nos anos 70 e, no bis, as magnânimas Hell Bent for Leather, com Halford entrando com a sua moto no palco, Breaking the Law e Living After Midnight, o Rock And Roll All Nite deles.

    Cada uma à sua maneira, no fim foram duas apresentações dignas dos nomes que essas duas bandas carregam. Não sabemos se esse Pantera vai durar, assim como não sabemos até quando esse Judas Priest dura, mas, se essa for a última passagem dos dois pelo Brasil, terão deixado uma ótima memória.

    Pantera – Setlist:

    A New Level

    Mouth for War

    Strength Beyond Strength

    Becoming

    I’m Broken

    5 Minutes Alone

    This Love

    Yesterday Don’t Mean Shit

    Fucking Hostile

    Vídeo tributo a Dimebag e Vinnie com trecho de Cemetery Gates

    Planet Caravan (cover de Black Sabbath)

    Walk

    Domination / Hollow

    Cowboys From Hell

    Judas Priest – Setlist:

    Intro (gravada): The Hellion

    Electric Eye

    Riding on the Wind

    You’ve Got Another Thing Comin’

    Jawbreaker

    Firepower

    Devil’s Child

    Turbo Lover

    Steeler

    Between the Hammer and the Anvil

    Metal Gods

    The Green Manalishi (With the Two Prong Crown)

    Screaming for Vengeance

    Painkiller

    Hell Bent for Leather

    Breaking the Law

    Living After Midnight

       

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  • HAMMERFALL E HELLOWEEN – São Paulo (SP)

    HAMMERFALL E HELLOWEEN – São Paulo (SP)

    Por Luiz Tosi

    Fotos: Roberto Sant’Anna

    Uma noite para ser lembrada. Dá para resumir assim o último sábado (8). Também, convenhamos, juntar HammerfallHelloween e mais oito mil fãs ensandecidos, o resultado não poderia ser outro. A apresentação, que aconteceu no Espaço Unimed (SP) fez parte da United Forces Tour”, que, como o próprio nome entrega, celebra a união de forças entre as duas bandas, para uma das parcerias mais bem sacadas dos últimos tempos no mundo do metal. Os dois grupos ainda voltariam a se apresentar no mesmo local no dia seguinte, fechando a curta passagem pelo Brasil, que ainda teve um show em Ribeirão Preto (SP) na quinta-feira anterior (6).

    O grande mérito da “United Forces” foi unir as duas bandas em excelente fase, ambas esbanjando confiança com lançamentos recentes muito bem recebidos pelo público – Helloween (2021) e Hammer of Dawn (2022) –, aumentando ainda mais a expectativa dos apaixonados fãs brasileiros.

    O público lotou a casa cedo para prestigiar o Hammerfall, que apesar de ser anunciado como “Special Guest”, na prática recebeu tratamento de banda de abertura. Contando com palco menor, set de 60 minutos, nenhuma produção (apenas um backdrop por trás da bateria do Helloween) e um som consideravelmente mais baixo do que o da atração principal, os suecos, com seus quase trinta anos de estrada, entregaram um show espetacular. A banda subiu no palco às 20h30 – meia hora atrasado em relação ao horário divulgado pela produção -, e o que se viu a partir dali foi um show de carisma, entrega e competência, algo que fez com que rapidamente o grupo conquistasse até os que estavam ali apenas pelo Helloween.

    O setlist ajudou muito, com um mix inteligente de novidades e clássicos de todas as fases. A abertura veio com Brotherhood, do novo álbum Hammer of Dawn, seguida de Any Means Necessary, de No Sacrifice, No Victory (2009). Ambas foram muito bem recebidas, apesar do som péssimo, que só foi corrigido a partir da terceira música, a clássica e rápida The Metal Age, do álbum de estreia Glory to the Brave, de 1997. Hammer of Dawn, ótima faixa-título do novo disco, não chegou a empolgar tanto. A dobradinha seguinte com as sensacionais Renegade e Last Man Standing, não deixou o clima cair.

    A performance da banda foi impecável. Os membros originais do primeiro álbum, Joacim Cains (vocais), Oscar Dronjak (guitarra) e Fredrik Larsson (baixo) estão muito bem acompanhados pelo excelente baterista David Wallin e pelo extraordinário Pontus Norgren (guitarra – The Poodles, Talisman, Humanimal, Jeff Scott Soto), membro desde 2008.

    A sequência veio com um medley de quatro músicas em comemoração aos 20 anos do álbum Crimson Thunder (2002): Hero’s Return, On the Edge of Honour, Riders of the Storm e a faixa-título. Acertaram em cheio, já que esse é um disco muito celebrado pelos fãs. Brincando com o nome da banda, Joacim Cans perguntou quem estava assistindo ao Hammerfall pela primeira vez e pediu para que os veteranos ajudassem os novatos a completarem a frase “Let the Hammer… Fall”, anunciando, para a empolgação geral, Let the Hammer Fall, possivelmente o maior hino da banda.  A próxima foi (We Make) Sweden Rock, que, com seu acento hard rock, funciona muito ao vivo e encerrou o set regular. Sem deixar o palco, o “bis” veio com Hammer High em que o destaque foi a “guitarra-martelo” de Oscar Dronjak.

    Cans então pediu aplausos para o Helloween dizendo que sem eles não existiria Hammerfall. A festa se encerrou com Hearts on Fire, deixando um “gostinho de quero mais” no público. Se o Hammerfall não vinha ao Brasil há cinco anos, esse show certamente serviu para reconectar ainda mais os fãs e a banda. Não duvido eles voltarem num intervalo de tempo bem menor, para uma apresentação completa.

    O intervalo de 30 minutos para troca de palco só aumentou a expectativa do público. O caso de amor do Helloween com o Brasil é longo e intenso. Desde a estreia por aqui, no longínquo Monster of Rock” de 1996, já foram mais de 30 apresentações no país, incluído presença em duas edições do “Rock in Rio” e dois shows registrados em São Paulo para lançamentos oficiais. Mas foi em 2017, quando a banda anunciou o retorno de Michael Kiske (vocais) e Kai Hansen (guitarra e vocais) que essa relação ganhou outras proporções. Uma turnê comemorativa evoluiu para um single, para uma segunda turnê, para um álbum completo e cinco anos depois o Helloween está mais forte do que nunca.

    Pontualmente às 22h, o telão projetou um vídeo inspirado nas artes dos álbuns Keeper of the Seven Keys Part I (1987) e Helloween (2021), ao som de Orbit, faixa instrumental extraída do último álbum. A dimensão que a banda ganhou nesses anos se mostrou no capricho, além do cuidado com a produção, que ficou sensacional. O palco com uma abóbora gigante e telões de alta definição criou um cenário especial; a iluminação foi um show à parte, e ainda houve chuva de papéis picados e serpentinas, ao melhor estilo KISS.

    Skyfall foi uma ótima escolha para a abertura. O épico de doze minutos, que foi o primeiro single do novo lançamento, é Helloween puro e conta com Andy Deris, Michael Kiske Kai Hansen juntos nos vocais, criando uma atmosfera única. Já virou clássico! A segunda da noite foi Eagle Fly Free, e aqui já deu para perceber a grande mudança em relação aos shows anteriores com essa nova formação: a alternância entre os vocalistas na primeira metade show ao invés de duetos em todas as músicas. Eu preferi muito mais assim. Essa dinâmica tornou as músicas mais fortes e diretas, ao serem reproduzidas como foram concebidas. Ver Michael Kiske fazendo Eagle Fly Freesozinho com a banda foi emocionante. Ainda hoje me pego incrédulo com os quatro membros vivos da era Keepers juntos no palco. A alternância continuou com Mass Pollution, mais uma do novo disco com Deris nos vocais, e uma sequência de enfartar qualquer um: Future World (com Kiske cantando), Power (Deris) e Save Us (Kiske). Falar de Kiske é chover no molhado, mas vale o destaque para Deris, que está cantando muito, talvez até ajudado pelos descansos entre músicas que essa dinâmica de show proporciona.

    Andi Deris apresenta Kai Hansen como “o homem que começou tudo em 1983”. Kai assumiu o microfone (sem guitarra) para o seu já tradicional medley do álbum Walls of Jericho, de 1985. A sequência da vez foi com Metal Invaders, Victim of Fate, Gorgar, Ride the Sky e Heavy Metal (Is the Law). De chorar! Depois do peso thrash-speed do medley, veio o momento mais intimista do show e primeiro dueto desde Skyfall: Forever and One (Neverland), interpretada por Andi Deris e Michael Kiske juntos, reencenando, a pedido de Kiske, a performance da mesma música no mesmo Espaço Unimed, em 2018, quando a banda gravou o DVD United Alive(2019).

    Em seguida, o guitarrista Sascha Gerstner assume os holofotes para um solo curto, mas bem eficiente. Aqui vale ressaltar a importância que ele assumiu na banda nesses quase 20 anos desde a sua entrada. Sasha é a força técnica e musical do Helloween, peça que mantém a engrenagem apertada e azeitada. É aquele meio-de-campo que organiza o time, distribui a bola e sabe a hora de aparecer, como poucos, dando liberdade para os craques veteranos do time brilharem. E melhor que um ótimo meio-de-campo é contar com uma dupla para o setor. E não tem companheiro melhor que Dani Löble para segurar o time. Que batera!

    Os três vocalistas voltaram ao palco para Best Time, mais uma do novo álbum e muito bem recebida pelos fãs, seguida dos hinos absolutos Dr. Stein e How Many Tears, para explodir de vez com tudo. Podia acabar aqui que estava bom, mas ainda tinha mais, e a primeira do bis foi Perfect Gentleman, com Andi de cartola, bengala e paletó. A dobradinha final não poderia ser mais perfeita, com a épica Keeper of the Seven Keys (para mim, sempre o momento alto dos shows) e I Want Out maior hit da banda -, ambas interpretadas pela dupla KiskeDeris.

    Helloween e Hammerfall fizeram shows tecnicamente irretocáveis, mas, acima de tudo, divertidos, leves e descontraídos, nos lembrando que Heavy Metal ainda pode ser divertido, leve e descontraído, com o poder de te fazer voltar para casa com um sorriso enorme no rosto, pronto para encarar os problemas do dia-a-dia. E foi assim que o público saiu do Espaço Unimed.

    Setlist Hammerfall

    Brotherhood

    Any Means Necessary

    The Metal Age

    Hammer Of Dawn

    Renegade

    Last Man Standing

    Crimson Thunder  Medley: Hero’s Return / On The Edge Of Honor / Riders Of The Storm / Crimson Thunder

    Let The Hammer Fall

    (We Make) Sweden Rock

    Hammer High

    Hearts On Fire

     

    Setlist Helloween

    Skyfall

    Eagle Fly Free

    Mass Pollution

    Future World

    Power

    Save Us

    Medley: Metal Invaders / Victim of Fate / Gorgar / Ride the Sky / Heavy Metal (Is the Law)

    Forever and One (Neverland)

    Best Time

    Dr. Stein

    How Many Tears

    Perfect Gentleman

    Keeper of the Seven Keys

    I Want Out

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  • IRON MAIDEN – São Paulo (SP)

    IRON MAIDEN – São Paulo (SP)

    Por Luiz Tosi

    Fotos: Rafael Andrade

    No final os anos 1990, o Iron Maiden iniciou uma tradição que perdura até hoje: intercalar as tradicionais turnês para promover álbuns com “Special Tours”, turnês comemorativas ou temáticas. A primeira mais significativa foi a “The Ed Hunter Tour”, de 1999, uma ‘Greatest Hits Tour’ que promovia Ed Hunter, um game tosco acompanhado de uma coletânea da banda; e, principalmente, marcava o retorno do vocalista Bruce Dickinson à Donzela de Ferro após seis anos em carreira solo. Então, veio a “Give Me Ed… ‘Til I’m Dead Tour” (entre a “Brave New World” e a “Dance on The Road” tours), a “Eddie Rips Up the Tour” (The Early Days, minha favorita), as bombásticas “Somewhere Back in Time”, “Maiden England” e, finalmente, a “The Legacy of the Beast Tour”, que deveria se encaixar em algum lugar entre a “The Book of Souls” e a que viria ser a “Senjutso Tour”. Deveria…

    Iniciada em maio de 2018, a “The Legacy of the Beast Tour” que, assim como a turnê que deu origem à série, também foi desenhada para promover um game tosco, foi descrita pelo empresário da banda, Rod Smallwood, como uma “history/hits tour”: “o design do palco conta com “vários ‘mundos’ diferentes, mas interligados, com um setlist cobrindo uma grande seleção de material dos anos 80 com um punhado de surpresas de álbuns posteriores”. Realmente, cumpriu o prometido, o setlist trazia gratas surpresas como Aces High e Revelations, alguns presentes de Deus como Where Eagles Dare, For the Greater Good of God, The Wicker Man e The Evil That Men Do, além da jóia da coroa: Flight of Icarus – no set pela primeira vez desde 1986 – além, é claro, do “bloco do mais do mesmo”, com The Trooper, Fear of the Dark, The Number of the Beast, Iron Maiden (ainda?!) e afins.

    A “Legacy Tour” passou pelo Brasil em outubro de 2019, com apresentações no Rock in Rio e por São Paulo (SP) e Porto Alegre (RS). O sucesso foi tanto que a turnê ganhou uma segunda perna, com set parcialmente alterado, para mais trinta e cinco datas em 2020. Aí veio a pandemia, o mundo parou e a turnê foi remarcada para o ano seguinte, porém dessa vez com uma nova data na agenda, justamente o retorno ao Rock in Rio de 2021. Seria a segunda edição consecutiva da banda no festival e na mesma turnê. Então, o Iron Maiden aproveitou a pausa para entrar em estúdio e anunciou para setembro de 2021, logo após o fim da “Legacy Tour”, o seu novo álbum, Senjutsu.

    Bom, mas faltou combinar com a COVID. Aí, todo mundo sabe o que aconteceu… A Legacy Tour”, desta vez com o Rock in Rio no balaio, ficou para 2022. E foi aí que o meio de campo embolou. Senjutsu foi lançado na data programada, não mais ao final da “Legacy Tour”, mas no meio dela, impossibilitando a banda de montar uma nova turnê de apoio ao álbum, como normalmente faz. Em entrevista ao Loudwire em janeiro último, Bruce Dickinson falou sobre o assunto: “Não podemos mudar a turnê tanto assim, porque todo mundo pagou para ver o show da turnê “Legacy of the Beast” e é um ótimo show. Vamos manter todo o nosso visual.” O vocalista ainda prometeu alguns shows futuros apresentando o novo álbum na íntegra – a ver.

    Para não deixar o lançamento passar em branco, a solução foi fazer um puxadinho e criar um “momento Senjutsu” dentro do show – um segmento com as três primeiras faixas do álbum dentro do set. “Vamos fazer algumas adições e mudanças na produção e no setlist para incluir novas músicas do nosso novo álbum, Senjutsu, fazendo a versão de 2022 da “Legacy of the Beast” ainda mais espetacular do que o aclamado show original”, contou Rod Smallwood em nota. A ideia soa interessante, gostei. Agora é conferir na prática.

    E foi com essa expectativa que fui ao Morumbi num domingo úmido e com os termômetros marcando 10 graus de temperatura. Mas Iron Maiden é dever civil: convocou, a gente comparece! Como esperado, o estádio estava lotado. Se não dava para ostentar as obrigatórias camisetas da banda debaixo de tantos casacos, alguns mostravam sua paixão pela banda com gorros, moletons e cachecóis do grupo. E foi nesse clima europeu que, às 20h10, a clássica Doctor Doctor do UFO manteve a tradição e nos avisou que o show estava para começar.

    Sobre o show em geral, sinceramente tenho muito pouco a acrescentar. Afinal, tenho certeza que quem está lendo essa resenha viu, se não ao vivo num dos quatro shows da banda pelo Brasil – além de São Paulo, o Iron Maiden tocou em Curitiba (PR), Ribeirão Preto (SP) e no Rock in Rio (RJ) –, pelo menos pela transmissão da TV da apresentação no festival carioca. Nota dez em todos os quesitos. Palco: Dez! Som: Dez! Perfomance: Dez! Efeitos visuais: Dez!

    Dave Murray, Adrian Smith e o baterista Nicko McBrain entraram devidamente agasalhados; Já Steve Harris e Janick Gears, apenas de regatas, se sentiram em casa com o clima Londrino de São Paulo. E o que falar de Bruce Dickinson? Que show! O que esse cidadão está cantando, do alto de seus 64 anos e com um tratamento de câncer no currículo, é brincadeira! Um espetáculo à parte, combinando técnica, força, carisma, performance e visual, com cabelos longos (sustentados por um coque samurai no início do show) e uma calça e jaqueta de couros com camisa branca, lembrando o figurino do histórico show no “Donnington Festival”, de 1992. No geral, não houve nenhuma alteração entre os shows de São Paulo e das outras cidades. Os mesmos backdrops, luzes, efeitos e figurinos. Tudo no lugar, bem ensaiado, inclusive algumas falas entre as músicas foram as mesmas.

    Agora, vamos falar sobre o elefante na sala: o setlist – ou, pelo menos, a ordem dele. Se a ideia de plugar esse momento Senjutsu ao show até parecia interessante, na prática ela se mostrou bastante equivocada. Pelo menos como foi executada, encaixando esse bloco logo na abertura do show. O começo foi frio como o dia e a coisa demorou para engrenar. Senjutsu, a música, não funciona como abertura. Para quem teve como “openers” do calibre de Aces High, Wicker Man, Moonchild e algumas esquecidas, casos de Wildest Dreams e Be Quck o r Be Dead (não entendo abandonarem essa música) e até mesmo Man On the Edge e Futureal – ambas da faze Blaze Bayley – essa música se torna longa e maçante. Nem a entrada de um Eddie Samurai conseguiu esquentar o público. Stratego, a segunda, foi muito bem recebida e ficou ótima ao vivo, mas ainda não o suficiente para levantar os fãs. Coube, então, a The Writing on the Wall a missão de encerrar (ou salvar?) o bloco Senjutsu. Quase deu. A música é excelente, também ficou ainda melhor ao vivo e tem potencial para seguir nos shows do Iron Maiden por muito tempo, mas vamos lembrar que no set original da “Legacy Tour” a essa altura já teríamos visto a trinca Aces High / Where Eagles There / Two Minutes to Midnight logo na abertura. Aí complica…

    Nada contra as três novas músicas, mas, em minha opinião, abrir com elas foi um erro. Talvez, o bloco Senjutsu no fim do set regular, na abertura do bis, num interlúdio dedicado a ele ou mesmo diluir as três faixas no set, pudesse funcionar melhor. Enfim, isso não saberemos, mas infelizmente o set como ficou acabou prejudicando, inclusive, o próprio álbum Senjutsu ao não fazer justiça a três ótimas músicas, que ficaram excelentes ao vivo e, se melhores encaixadas, poderiam ter sido momentos altos do show. Como diz o editor-chefe da ROADIE CREW, Ricardo Batalha, faltou um “engana-trouxa”, aquela bofetada no início do show que deixa todo mundo extasiado e dá salvo conduto para a banda tocar o que quiser sem ninguém questionar.

    Missão Senjutsu cumprida, um breve intervalo para troca de palco, e vamos para a etapa “Legacy of the Beast” do show. Pensei que aqui eles poderiam abrir essa parte com Aces High, trazendo o espectador rapidamente para o clima original da turnê. Mas eles optaram pela magnífica Revelations. Essa música é perfeita, é linda, é maravilhosa, mas seu andamento ‘mid-tempo’ de semi-balada normalmente leva o show mais para uma atmosfera introspectiva e emocional do que necessariamente tem o poder de incendiar a apresentação. O Morumbi seguiu frio e comedido.

    Em seguida, Bruce se dirige à São Paulo como a “capital do rock and roll”. O cantor ainda elogiou os fãs paulistas por não mudarem seu amor pelo grupo e introduziu a próxima reforçando os laços de sangue entre banda e público, como verdadeiros Blood Brothers. A essa altura, focos de impaciência já eram percebidos aqui e ali. Poxa, um frio desses, e vocês me sacam uma valsa que repete VINTE vezes a frase “we’re blood brothers” ao longo de sete intermináveis minutos? Aliás, para quem chama essa música de progressiva, de progressiva ela não tem nada. Progressivo progride, essa só é longa mesmo. Fim da música. Agora vai! Só que não… A introdução com corais gregorianos anunciando Sign of the Cross foi um balde de água gelada. Chegamos a 45 minutos de show somente com músicas “mid-low” tempo e pela primeira vez na minha vida, eu vi o Iron Maiden perder a atenção do público. Há tempos eu não via um público tão desconectado da banda. Parecia um bar, todo mundo batendo papo, gente de costas para o palco ou no celular. Eis que, praticamente na metade do show, veio o gol de honra. E que golaço: Flight of Icarus. Que coisa mais linda! Golaço para levantar a torcida e dar fôlego para o segundo tempo. Soou meio estranho ver Fear Of The Dark, uma música tradicionalmente de final de show, no meio do set. Mas não é que funcionou bem, e ela foi sendo, disparada, a maior reação do público? Fear Of The Dark é a “melhor música chata” ao vivo! Se Flight of Icarus trouxe o público de volta ao show, coube a ela levantar o estádio. Impecável!

     

    E se Fear Of The Dark é associada a encerramentos, neste ela teve o papel de finalizar um primeiro tempo frio e sonolento. Mas como um time que desce cabisbaixo para o intervalo e leva uma bronca do técnico, o Iron Maiden fez uma segunda metade espetacular. Pôs o regulamento debaixo do braço e sacou uma sequência de pérolas manjadas, porém mais do que necessárias naquele momento: Hallowed Be Thy Name, a melhor música do Iron Maiden em todos os tempos, The Number of the Beast, Iron Maiden e The Trooper. Nada como olhar para o banco e ver uma fileira de craques para salvar o time. The Clansman foi a seguinte, e ficou meio fora de lugar. Durante a música, um amigo me perguntou se eu gosto dela. Respondi: “Adoro, mas não agora”.  Porém, à essa altura a virada já tinha vindo e tudo era festa. Festa, aliás, que explodiu de vez com Run to The Hills, a melhor música de encerramento da banda, na minha opinião. E para terminar um set confuso de um modo confuso, veio a antes usada como faixa de abertura Aces High, com seu avião Spitfire. Êxtase. A sensação foi a de esperar o show inteiro para ver a música de abertura. Talvez se tivessem executado o set do fim para o começo desse certo? Sei lá.

    Fim de show e o Motoradio vai para Bruce Dickinson. Essa foi possivelmente a melhor performance ao vivo que já vi dele, entre Iron Maiden e carreira solo. Ao deixar o estádio ao som de Always Look on the Bright Side of Life, do brilhante grupo humorístico inglês Monty Python, tocada no final de todo show do Iron Maiden, o clima era de vitória, felicidade e celebração por mais um reencontro com a banda favorita de (quase) todos os brasileiros. Valeu. Que venham outros e… Up The Irons! Só não precisava ter levado três gols em 15 minutos…

    Iron Maiden – setlist:

    Senjutsu

    Stratego

    The Writing on the Wall

    Revelations

    Blood Brothers

    Sign of the Cross

    Flight of Icarus

    Fear Of The Dark

    Hallowed Be Thy Name

    The Number of the Beast

    Iron Maiden

    The Trooper

    The Clansman

    Run to the Hills

    Aces High

    Confira algumas fotos do Avatar, banda sueca que abriu o show do Iron Maiden em São Paulo:
    Johannes Eckerström, vocalista do Avatar, banda sueca que está divulgando seu 8° álbum de estúdio, “Hunter Gatherer”
    Johannes Eckerström e o baixista e torcedor da Ponte Preta Henrik Sandelin, músico que já fez intercâmbio no Brasil e que, inclusive, tem o mapa do país tatuado em seu braço
    Johannes Eckerström e o baterista John Alfredsson
     
    O figurão Johannes Eckerström
     

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